Parte III
O meu pai olhou para mim e fez-me sinal para subir
lá acima ver o que se passava com a moça, eu fui. Contrariada, mas fui.
Subi as escadas, degrau a degrau, devagarinho. A
minha vontade de ir lá para cima era nula, mas tinha de fazer o que o meu pai
me tinha pedido. Assim que cheguei lá acima, bati à porta, abria-a e pus a
cabeça do lado de dentro.
- Posso entrar? – Perguntei serenamente, se ela fizesse
algum movimento brusco teria de ser rápida a fugir, fecharia a porta num ápice
e escondia-me. A cara dela ao olhar para mim foi do género “Estás a pisar o meu
território, baza ou saco-te um bife”.
- O que queres? – Perguntou com uma voz rouca,
dava para reparar que tinha estado a chorar
- Queria ver se precisavas de alguma coisa…
- Não, cenas minhas. – Disse ela virando a cara
para a mesa de cabeceira onde tinha uma foto com o pai dela
- Tens muitas saudades? – Perguntei-lhe
- Saudades? Do que estás a falar?
- Do teu pai, tipo… - Ela interrompeu-me
- Hey! Ele não morreu! – Manifestou-se ela
enraivecida
- Eu não disse isso… - Tentei logo corrigir o que
ela tinha percebido
- Ele não morreu, ele só está doente, mas vai
ficar logo melhor!
- Doente? Han? A serio?! – O meu queixo caiu, eu
não sabia de nada e tinha-lhe tocado em algo íntimo, não era de todo a minha
intenção
- De certeza que a minha queixou-se ao teu pai e
ele te disse… Toda a gente sabe disso e atiram-me à cara, por isso força, está
à vontade para o fazer.
- Que dizes rapariga? Eu não sei nada de ti? O que
é que o teu pai tem? Porque não desabafas? – Tentei mesmo ajudá-la, mas só
levava coices
- O meu pai… - O toque do seu telemóvel
interrompeu-a, e ela atendeu a chamada – Estou? Ah Mariana diz… não te
preocupes, amanhã às 8h em minha casa, vou levar companhia mas caga… Tá-se,
beijinhos trenga.
- Ias a dizer… - Continuei eu a bater no ceguinho
para ver se descobria algo…
- O meu pai é um alcoólico. Satisfeita?! – Respondeu-me
bruscamente
- Desculpa, eu… eu não sabia, juro! – Estava sem
saber o que dizer, conviver com alguém que tem problemas de álcool deve ser
horrível, agora percebo porque os pais dela se separaram e porque às vezes a
Cátia ia lá para casa a chorar, agora tudo começava a fazer sentido.
- Mas não penses que ele é capaz de fazer mal a
alguém. Ela era incapaz, aquilo que aconteceu com o meu irmão foi um acidente.
Ele não teve culpa, a culpa não foi dele… - Débora soluçava, chorava, tremia só
a falar no assunto…
Irmão?! Que irmão?! Ok… sem dúvida alguma algo não
batia certo, que irmão está ela a falar?!